O terror, os jovens e o new metal

Aproveitando a minha febre de Mundinho Anne Rice, resolvi trazer esse texto que foi publicado originalmente em março de 2020 no blog Necronomiconversa

Há algum tempo já eu queria rever a Quadrilogia Pânico e aproveitei o Carnaval para começar. O primeiro continua sendo um dos meus preferidos da vida e hoje eu vejo como a Sidney é uma personagem forte, totalmente diferente dos clichês que eu estava acostumada a ver no terror. Não há cenas de nudez gratuita, ela sempre sobrevive, cuida dos outros e ainda carrega a culpa por achar que desencadeou todos os acontecimentos. É um filme impecável. Considero as continuações quase tão boas quanto. Wes Craven brinca com os clichês do gênero, usa o filme dentro do filme, como ele já havia feito em O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger

Eu tenho 33 anos* e vejo terror desde criança, por influência da minha mãe, então eu me lembro dessa onda que Pânico trouxe em 1996. Claro que havia terror sendo feito nos anos 90, mas não me lembro de nada tão expressivo quanto o filme do Craven. Mas depois dele veio uma série de filmes com adolescentes sendo perseguidos, assassinados e etc. Tenho um apego nostálgico a cada um deles, mesmo sabendo que alguns são bem ruins. Logo depois de Pânico veio Eu sei o que vocês fizeram no verão passado. Lembro de ficar muito brava quando respondem que a capital do Brasil é o Rio de Janeiro. 

Sidney Prescott

Lembram de Prova Final do Robert Rodriguez? O filme misturava terror, jovens e ficção científica, além de um ser aquático que contribuiu muito para a minha obsessão com essas criaturas. E Lenda Urbana, com um jovem Jared Leto? E A mão assassina que trouxe aquele clima de terrir dos anos 80? Sem esquecer de Medo em Cherry Falls, que subverteu um dos grandes clichês do terror. Na maioria dos slashers dos anos 80, os primeiros personagens a morrer eram aqueles que tinham vida sexual ativa. Pensem na quantidade de jovens que morreram durante ou depois do ato. Em Medo em Cherry Falls é o contrário, o assassino só mata virgens, então todo mundo começa a querer transar para escapar dele. Fico pensando aqui que a maioria desses filmes deve estar datado, que a Michelle de 12, 13 anos gostava pela falta de referências e do bom senso que a idade me trouxe, mas é inegável que o gênero estava a mil no final dos anos 90. 

Um que eu gosto muito até hoje é A Casa da Colina, de 1999, remake de filme de mesmo nome de 1960, com meu amado Vincent Price. Pela falta de internet, acabei conhecendo o remake antes do original. Aqui não temos adolescentes, mas sim adultos confinados numa casa bastante bizarra. Deve ser bacana revê-lo em tempos de quarentena. Acho que vou tentar. E uma coisa que eu passei a notar depois desse filme: o uso do new metal na trilha sonora. Nesse tocava a versão de Marilyn Manson para Sweet Dreams do Eurythmics. 

Quando o gênero estourou eu estava começando a gostar de rock e de metal, então fui fisgada por todas aquelas bandas, Korn, Kittie, Coal Chamber, Tura Satana e afins. Lembro de ver A Bruxa de Blair 2 no cinema em 2000 e ficar inconformada de ver uma gótica ouvindo esse gênero. O primeiro filme trazia bandas como Laibach e Front Line Assembly na trilha. O marketing mais legal é que o CD era vendido como se fosse uma cópia da fita que foi encontrada na van de um dos caras. Tenho até hoje a minha cópia. 

Kim Diamond

Bem nessa fase eu pedia muito para minha mãe me levar ao cinema e ela deve ter visto muito lixo comigo, entre eles Drácula 2000, que é uma verdadeira bomba. Outro caso foi A Rainha dos Condenados. Eu amava Entrevista com o Vampiro (ainda gosto, apesar de apontar uma problemática por segundo de filme/livro) e queria muito ver a sequência. O ano era 2002, eu tinha 15 anos e naquele ano mesmo eu já achei. Decidi revê-lo na semana passada e tudo só se confirmou: que lixo, mas tão bonito. 

O Lestat que eu conhecia era o Tom Cruise em seu personagem invejoso, homoafetivo, cruel e frio. O de Rainha dos Condenados é Stuart Townsend, querendo ser um vampiro sensual que desperta o tesão nas mulheres. Obviamente que não funciona e é apenas brega. Os efeitos são horrorosos e aqui temos mais uma vez o new metal. O Jonathan Davis do Korn que foi responsável pela trilha, inclusive Townsend dublou a voz a Davis. 

Aqui um parênteses para contar uma curiosidade: eu pedi o livro para a minha mãe, pois eu estava no auge do meu goticismo jovem e queria saber mais sobre a vampira Akasha. Ela não encontrou, mas me trouxe o CD com a trilha, que também guardo até hoje e considero algumas das músicas ali realmente boas. 

Mas falando sobre a Akasha, nesse filme ela foi interpretada pela maravilhosa Aaliayh, que faleceu pouco antes do filme ser lançado. Eu nunca tinha visto uma vampira negra no cinema de vampiros. Os filmes sempre ficaram naquele clichê de mulheres pálidas, voluptuosas. Akasha é negra, magra e linda. Até então eu só tinha visto vampiros homens negros, Blácula, Um Vampiro em Nova York e Blade são alguns exemplos. 

Akasha

Recentemente falei sobre o curta Suicide by Sunlight que também traz uma vampira negra, e muito por causa dele eu quis rever A Rainha dos Condenados. Eu já sabia que o filme era ruim, mas na época não me liguei de uma questão bem problemática. Akasha é uma vampira muito forte, mas é retratada como cruel, ainda pior que o Lestat. E no final ele a deixa para ficar com uma mortal branca.

Apesar de tudo isso, é impossível não olhar para esses filmes e sentir certa nostalgia. Eu cresci vendo clássicos, podreiras dos anos 80, mas tinha pouco acesso a filmes do Vincent Price e do Bela Lugosi, por exemplo. Aprendi muito do gênero com essas tosqueiras jovens e tenho carinho por eles. Não sei se funcionariam hoje, para quem não viu na época, mas para mim sempre vão ser um conforto.

*Agora beirando os 36

One thought on “O terror, os jovens e o new metal

  1. Memórias inesquecíveis que devem sempre ser relembradas. Entrevista com o vampiro um clássico que gosto muito de rever. Rainha dos Condenados me marcou pela trilha sonora, uma das músicas foi minha apresentação na dança do ventre.

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