Kallocaína, de Karin Boye

Eu me considero uma pessoa bastante curiosa. Estou sempre pesquisando sobre escritoras, diretoras e etc., mas o nome de Karin Boye nunca tinha passado por mim. Isso até que a Editora Carambaia publicou Kallocaína aqui no Brasil, com tradução de Fernanda Sarmatz Åkesson. Recentemente a editora lançou uma segunda edição da obra, dessa vez na Coleção Acervo, que possui preços mais acessíveis. Kallocaína é o quinto e útimo romance da sueca Karin Boye. A distopia foi publicada originalmente em 1940, oito anos depois de Admirável Mundo Novo e nove anos antes de 1984. Por que a obra não é citada entre as grandes obras do gênero?

Karin Boye nasceu na Suécia em outubro de 1900 e cometeu suicídio em abril de 1941. Ela fez parte de um grupo antifascista chamado Clarté e de uma organização de mulheres. Casou-se com um colega do Clarté, mas dizem que era mais um laço de amizade do que matrimonial. Logo em seguida, começou a se relacionar com mulheres, e esteve com Margot Hanel, a quem chamava de esposa, até o final de sua vida. Em seu país de origem ela é conhecida por sua poesia, mas sua obra mais famosa no resto do mundo é Kallocaína.

Na distopia encontramos uma especíe de diário de Leo Kall, que se encontra preso. Ele vivia em uma sociedade totalitária, na qual as pessoas viviam vidas muito parecidas. Trabalhavam muito o tempo todo, com apenas uma noite de folga na semana. Os relacionamentos visavam apenas a reprodução e as crianças eram cedo enviadas para centros de treinamentos. Meninos eram educados para serem soldados e meninas, para reprodutoras. O ideal da sociedade era basicamente a aniquilação da individualidade das pessoas. Todas deveriam viver a serviço do Estado.

O Estado é tudo, o indivíduo é nada.

Leo Kall é um químico que criou uma espécie de “droga da verdade”, que foi nomeada em sua homenagem. Ele explica que o príncipio é o mesmo da bebida, a pessoa bebe e se abre, conta seus segredos mais íntimos. A droga faz isso, faz um homem enorme chorar como um bebê e confessar seu mais puro desespero pela situação em que vive. A kallocaína seria usada para controlar os pensamentos das pessoas. Existe algo mais individual que o pensamento?

Nessa sociedade uma das profissões que existem é a de cobaia. A pessoa se voluntariava a ser cobaia dos mais estranhas experiências. Na hora dos testes da kallocaína muitas pessoas foram testadas, e foi descoberta a existência de uma espécie de seita. Nela as pessoas se encontravam para jogar conversa fora, dormir ou ficar apenas em silêncio. Isso era visto como algo completamente maluco, que não fazia sentido. Inclusive, eles consideravam até mesmo um aperto de mãos como algo anti-higiênico.

Além de toda a bizarrice da kallocaína, o químico ainda era um ciumento paranóico. Ele começou a desconfiar que sua esposa era amante de seu chefe, achava que esse chefe fazia parte da tal seita e para se proteger, Kall atacava os outros. A vigilância extrema da sociedade não dá segurança às pessoas, mas sim causa angústia que faz com que tomem atitudes precipitadas.

Karin Boye escreveu este livro após uma viagem para a Alemanha em plena ascensão do Nazismo. Muito disso de seguir fielmente o Estado me lembra essa baboseira que vemos aqui no Brasil depois da vitória de Lula. A diferença é que no livro a individualidade é apagada, é necessário que um vigie o outro e o denuncie, para o bem do Estado. No Brasil é cada um por si, pensando apenas no próprio umbigo e servindo a um Estado que eles nem sabem como funciona.

Como sempre, uma distopia atual, e essa escrita por uma mulher não-heterossexual e feminista. Talvez isso responda a pergunta que fiz no primeiro parágrafo.

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