Uma vida grandiosa

Eu tenho essa mania, talvez duvidosa, de sempre pegar um livro triste quando estou mal. Parece que chorar pela ficção dá um alívio das dores reais. Aproveitei que meu clube de leitura escolheu Uma vida pequena, da Hanya Yanagihara (trad. Roberto Muggiati) e o passei na frente de outros livros nesse final de dezembro. Comecei a leitura numa manhã de domingo, após uma crise de ansiedade na noite de sábado.

O livro nada mais é do que a saga de quatro amigos, dos tempos de juventude na faculdade até a velhice. São eles JB, Malcolm, Willem e Jude. Sabemos um pouco da vida de cada um ali, mas o foco é Jude. Todos sabem que ele passou por traumas pesados. Tem problemas de saúde, não aparece com camisas de mangas curtas perto dos amigos, não se relaciona com outras pessoas. Jude parece viver num mundinho próprio.

Willem é quem o entende, quem fica por perto, que cuida dele. O próprio tem alguns traumas familiares, mas lida com eles da melhor maneira que consegue, enquanto Jude é travado quanto ao passado. Eles dividem um apartamento, estão sempre juntos. Às vezes a amizade dos quatro se abala, mas Jude e Willem continuam sempre juntos.

Como este texto não é uma resenha, vou falar abertamente de alguns spoilers, pois esse texto é infinitamente emocional. Jude foi abandonado ao nascer e recolhido por um mosteiro. Quase todos ali abusavam dele. Depois disso, ele passou por uma série de situações difíceis e humilhações, até conseguir quebrar esse ciclo, entrar na faculdade e conhecer os amigos. A partir dali leva uma vida aparentemente normal. Entre muitas aspas.

Pessoas quebradas nunca se recuperam totalmente. Jude é um advogado poderoso, possui um apartamento próprio, tem amigos, mas ainda sente necessidade de se cortar. Ele guarda silêncio absoluto de seu passado, que esconde inclusive de seus pais adotivos. Mais uma vez Willem está ao seu lado. Gosto muito de Andy, médico que cuida de Jude, que é estourado, emocional e se preocupa de verdade com o amigo/paciente.

Em diversas (infinitas) passagens me identifiquei com Jude. Óbvio que não passei nem por 1% do que ele passou (A. me lembrou neste fim de semana que não há uma disputa de dores, de quem sofre mais), mas sinto a mesma dificuldade de me abrir, de pedir ajuda. Ao mesmo tempo que exponho minha vida na internet através destes textos sofridos, há partes que só tenho coragem de contar depois de muitas e muitas lágrimas.

J. me disse que uma amiga nossa leu esse livro e disse que era impossível alguém sofrer tanto quanto o Jude. Acho que essa amiga viveu uma vida muito protegida, sem ter muita noção do que acontece nesse mundo. Eu mesma sei por notícias e pela ficção, tenho medo de pensar mais a respeito. Isso mesmo depois de ter ouvido o podcast inteiro do Caso Evandro.

Aqui um parênteses. Eu sempre gostei de ler livros de true crime, via séries, agora não consigo sequer conceber a ideia. Depois de dois anos de pandemia, de crises de ansiedade, de viver em medo constante, o que eu menos preciso é de uma dose de crueldade real. Prefiro sempre a ficção, que me guarda desde que eu aprendi a ler.

É necessário contar uma história tão triste? E passar quase 800 páginas enfiando dor atrás de dor no leitor? Eu sinceramente não sei responder a essas perguntas. É mesma coisa quando me perguntam se eu não tenho medo de filmes de terror, e eu digo que sim. Mas que eu gosto de sentir medo. Parece que é uma distância segura. Vou sentir medo naquela uma hora e meia, e quando eu desligar a televisão vai voltar tudo à normalidade. Mas que normalidade é essa?

Eu fechei Uma vida pequena aos prantos, triste por Jude, por Willem, por todos. Fiquei triste por mim, que permaneci. Mesmo que eu hoje consiga falar sobre alguns assuntos, outros tantos ainda doem, e estão todos nesse livro. Masoquismo? Quem sabe. Egoísmo? Pode ser também. Mas foi bom mergulhar por uma semana e um dia em dores que não as minhas.

Em dado momento as dores se misturaram. Chorei algumas lágrimas que talvez não tenham sido apenas as minhas, mas fechei o livro e estou aqui escrevendo. E devo ler outros livros tristes, me apegar a personagens e seguir escrevendo nesse blog diário, como se estivéssemos em 2001. Mas é isso, estamos no final de 2021, nesse clima deprimente de virada de ano.

Em 2022 eu recomeço minhas listas de filmes e livros, começo agendas novas, faço planos. Reclamo do calor, das chuvas fortes, me sinto estranha de fazer aniversário perto do Carnaval. Ano que vem não vai ter Carnaval de novo.

PS1: A foto da capa do livro se chama Orgasmic Man e é de Peter Hujar.

PS2: Enquanto revisava o texto J. me chamou para falar do livro e citou passagens bonitas. Tem muita dor nesse livro, mas tem amor de verdade, qualquer amor que seja esse.


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