A balada do Black Tom, Victor LaValle

Lovecraft criou algo imenso dentro do terror. Esse lance do horror cósmico é algo que beira a genialidade, e ele com certeza influenciou muitos escritores. Porém, não podemos esquecer que Lovecraft era um lixo de pessoa, escória mesmo. Ele era racista, xenófobo e mais um monte de desgraça. E aqui entramos no ponto: é possível separar o autor da obra? A minha resposta é não. Não tem como a gente aproveitar um conteúdo sem pensar no tanto de merda que o autor fez.

Porém, é possível sim reconhecer a importância do trabalho da pessoa, mas sem nunca esquecer tudo de ruim que a rodeou. Victor LaValle é um escritor negro, estadunidense, que cresceu lendo Lovecraft e foi muito inspirado por ele. Depois de adulto ele se deu conta da carga de racismo que a obra do autor trazia. Ele decidiu então revisitar o conto O Horror em Red Hook, mas trazendo um personagem negro como protagonista. O resultado está no livro A balada do Black Tom, publicado no Brasil pela editora Morro Branco, com tradução de Petê Rissati. Essa edição traz ao final o conto de Lovecraft que inspirou LaValle, assim podemos analisar bem o tanto de racismo que o texto original traz.

Vou me ater ao enredo criado por LaValle para comentar aqui. Charles Thomas Tester, conhecido como Tommy, era um homem que vivia no Harlem com seu pai. Ele vivia de alguns bicos para sustentar a si e ao pai doente. Um de seus negócios foi conseguir um livro raro para uma mulher, porém Tommy reconheceu o perigo daquela obra e entregou para a mulher sem a última página, que ele escondeu bem. Ele usava roupas simples, e carregava o estojo de um violão, um disfarce perfeito, o músico falido. Dessa forma, ninguém pensaria no que ele realmente carregava naquele estojo.

Ele sabia uma música ou duas, e certo dia parou na frente do cemitério e começou a tocar. Um homem o abordou, e se apresentou como Robert Suydam. Ele o convidou a tocar numa festa que ele daria em sua mansão. Ofereceu 500 dólares para isso. Claro que ele ficou desconfiado, ele não era um músico tão bom assim, mas eram 500 dólares e ele resolveu conferir o que o esperava. Pouco depois desse encontro, Tommy foi abordado (de forma violenta) por um detetive particular e um detetive. O primeiro, a mando da mulher que Tommy trapeceou, e o segundo que estava investigando Suydam.

Suydam era um homem bastante rico e excêntrico. Ele mantinha relações com homens vindos de diversos cantos do mundo. Ele se dizia interessado nas culturas daqueles países. Seus parentes alegavam que ele era insano, que o dinheiro deveria ser retirado de sua posse. Envolveram a polícia para provar que ele estava envolvido em esquemas ilícitos, mas nada que o incriminasse foi encontrado.

Tommy compareceu à mansão de Suydam antes da festa para uma conversa, e entende que não estava ali apenas para tocar. A relação do homem com o ocultismo era bastante estreita, e de alguma forma Tommy estava ligado a tudo isso. Após passar a madrugada na mansão, Tommy estava a caminho de casa, quando se deu conta da presença de várias viaturas em frente a seu prédio.

Seu pai estava morto. O detetive disse que atirou no homem por legítima defesa, afinal ele carregava uma arma. Era um violão. Aqui LaValle traz um exemplo básico de como é ser um homem negro diante da brutalidade dos homens brancos. Isso acontece diariamente e o autor usou o fato em uma releitura de Lovecraft. A partir daí Tommy se torna Black Tom, se entrega ao mundo de Suydam, exausto de tudo que precisou passar.

Aqui um pequeno spoiler. Suydam convence Tommy a participar de seus feitos no ocultismo com a seguinte frase: “Seu povo é forçado a viver em labirintos de uma imundície híbrida. Mas e se isso pudesse mudar?”. Tommy não tinha mais nada a perder.

Como comentei no começo do texto, eu reconheço a importância de Lovecraft, mas acho sua escrita chata e enfadonha. Juntando isso com aquele monte de merda, não consigo desfrutar da leitura. Victor LaValle se apropriou de uma temática e transformou em algo infinitamente melhor, com uma discussão sobre racismo e as consequências que ele traz para as pessoas negras.

Há muito terror de qualidade sendo feito por mulheres, pessoas negras, LGBTQ+, então acho que já passou da hora de enterrar de vez esses homens brancos. Claro, eles foram importantes, fizeram a parte deles, mas chega. Que mais editoras se prontifiquem a publicar o terror atual, e parem de lançar edição em cima de edição de autores que foram extremamente problemáticos.


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