Uma conversa fora das redes sociais

Hoje mais cedo eu tirei uma foto de duas recentes leituras e escrevi um texto para o Instagram. Achei estranho porque não consegui marcar pessoas, mas “apertei enter” e nada da postagem aparecer. Descobri que todas as redes tinham caído, todo mundo desesperado e etc. Aí me toquei que eu tinha feito algo que eu vivo condenando: dependi de uma rede social para entregar um conteúdo que eu criei.

Eu não me considero uma criadora de conteúdo, eu não vivo disso. Quer dizer, vivo, meu trabalho é criar conteúdo para uma editora, o que eu faço fora do horário comercial eu considero um lazer. Hoje me peguei pensando que eu faço as coisas em vão. Escrevo textos, gravo vídeos, vejo um monte de filme, leio bastante e para quê?

Mas enfim, voltando ao assunto original, eu fiquei oito meses sem usar o Instagram. Estava tudo certo, bem menos ansiosa, mas em dado momento percebi que eu precisava dele para divulgar meus textos. Não sei vocês, mas eu cresci escrevendo em blogs e fotologs. O conteúdo estava ali, as pessoas iam até lá e pronto. Agora, se não tivermos uma rede social, a chance das pessoas lerem você é mínima.

A foto em questão era essa:

No texto eu falava sobre como as pessoas estão direcionadas apenas para livros “do momento”, e se esquecem de todo o resto. É óbvio que há novidades incríveis. Eu mesma fui uma que surtou com o livro mais recente da Elena Ferrante, comprei correndo e li de uma tacada só. Mas e as autoras e editoras independentes?

Os livros publicados por editoras grandes são aqueles que mais vão aparecer nas redes sociais. E o motivo é bem claro: marketing. O pessoal independente não tem muita grana para investir nisso, e os livros acabam não ganhando o destaque que eles merecem. Mas por que os leitores não vão atrás para conhecer coisas novas? É mais fácil consumir o que está caindo no seu colo? É claro, mas você perde um mundo de coisas.

Na foto estão duas leituras que eu amei fazer. Cartografias do corpo que canta é o livro de poesias da Bárbara Mançanares, que eu tive a honra de conhecer em uma residência literária. Foram dias de mato, silêncio, conversas calmas e muita água. Os poemas deste livro refletem vários desses dias da residência, falando do corpo e da terra. A edição ainda traz diversos bordados feitos pela autora e foi publicado pela Editora Patuá.

Três palmos é uma novela de Maria Eugênia Moreira, publicado pela Penalux. A autora nos traz um protagonista que acabou de levar um pé na bunda e deseja sumir no mundo. Nas duas primeiras partes do livro temos a visão dele, e somos levados a achar que ele é um coitadinho. Na terceira, a visão é da mulher que o deixou. Um livro curtinho, para ler de uma só vez e depois ficar pensando nele.

Dois livros ótimos que dificilmente chegarão a um público mais extenso, mas que deveriam. Assim como diversos outros que já comentei aqui nesse blog. Então fica aqui meu convite a vocês explorarem além das grandes editoras, além dos nomes conhecidos. Garanto que tem muita preciosidade por aí.

E que fique claro que eu não odeio redes sociais. Acho que elas são uma ótima forma de divulgar trabalhos, de compartilhar momentos, mas acho bizarro como as pessoas se tornaram dependentes delas. Se um dia todas elas sumirem, quantos negócios fecharão? Quantas pessoas deixarão de ganhar dinheiro com publicidade?

Os blogs seguem firmes desde os tempos de internet discada. Neles as discussões são mais amplas, mais é mostrado. E é exatamente disso que eu gosto.

Imagem do post: Woman reading (Barbour, 1910)


4 thoughts on “Uma conversa fora das redes sociais

  1. Oi, Michelle.
    Ando na mesma vibe, só que estou fora do insta faz uns meses. Voltei algumas vezes e depois sumi de novo. Lá (@livro.stan) falava sobre livros que tbm não eram muito conhecidos, mas que podem ser verdadeiros tesourinhos. Esses dois aí são bem minha cara (e já já vou fuçar no skoob haha). Tô lendo um de poesia, da Penalux, que a cada tempinho de leitura dedicado, saio com um monte de poesia favoritada – As areias da Ampulheta, Lua Costa. Traz uma boa sacada sobre o tempo, as marcas de passagem (segundos, minutos, horas) e como isso reflete no concretismo das poesias. Tem aquele olhar contemplativo sobre o ser, o existir, o apreciar, o perceber, o experienciar coisas. Sei lá, meu tipo de poesia, desses livros mara para dar de presente (esse eu ganhei de uma amiga). Os mapas sinalizam ilhas submersas, do Franck Santos, tbm da Penalux, foi um bom achado esse ano; é prosa poética. Acho que esse já tá esgotado; mais fácil encontrar dele Os blues que não dançamos, um noveleta (tbm meio crônica poética) sobre um relacionamento à distância; saiu pela Moinhos.
    Apesar de distante das redes, continuo buscando outras maneiras de me conectar às pessoas e conectá-las aos livros. Sem isso, eu não vejo mto sentido na vida (rs); é prazerzinho em especial. Por isso pensando tbm em algum tempo “voltar ao início”, voltar aos blogs.

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    1. Por favor, volte aos blogs!
      Eu prefiro mil vezes ler posts das pessoas aqui do que no IG.
      Sou daquelas que gostam de ler os textos com calma, sem pressa, e o IG tem esse senso de urgência!
      E a Penalux é cheia de lançamentos incríveis, né? Li muitos livros bons publicados por eles. Moinhos então nem se fala!
      Beijos

      Liked by 1 person

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