Uma tristeza infinita, de Antônio Xernexesky

Mais de uma vez me deparei com a pergunta: “Como teria sido o trabalho de Virginia Woolf, Sylvia Plath e Anne Sexton se elas tivessem sido medicadas?”. Não apenas elas, mas vários escritores que tiveram vidas breves e deixaram poucos trabalhos. Muitos falam que a dita genialidade deles vinha justamente dessa tristeza infinita. Ellen Forney, autora da HQ Parafusos fala bastante disso em seu trabalho.

Sou bastante atraída pelo assunto da depressão e tudo que a cerca. O novo livro de Antônio Xerxenesky trata da melancolia, da tristeza infinita do pós-guerra, em que a depressão ainda não havia recebido seu devido nome. Nicolas, um jovem psiquiatra francês, se muda para um vilarejo da Suíça para cuidar de pacientes que sofrem traumas do pós-guerra. Estamos no começo dos anos 50, ainda não há medicamentos para tratar doenças da mente e a psicanálise parecia o único caminho.

Conhecemos bem três de seus pacientes, Mary, Emil e Lee. Cada um lidando com um trauma diferente, todos centrados na guerra. Nicolas discorda dos tratamentos de eletrochoque, ele quer conversar com seus pacientes, o que levou cada um àquele estado. Mary rói suas unhas até que seus dedos sangrem, e tem um comportamento chamado de histérico. Lee se encontra num estado catatônico, quase não fala. Ele apenas expressa que está afundado numa tristeza da qual não vê saída. Já Emil parece bem, o único “problema” é que ele vê e conversa com uma figura que ele chama de Satã.

Após cuidar deles, Nicolas volta para sua casa por uma trilha vazia, em meio a uma floresta. Ali ouve cada som da natureza e se perde em seus próprios pensamentos. Assim como os pacientes, ele também carrega o trauma dentro de si. Quanto mais tenta se distanciar da dor de cada pessoa que se trata, ele se distancia também da esposa, que não gosta da vida de dona de casa naquele vilarejo. Eles discutem política, arte, ciências, e mesmo assim parecem não se entender. Ele não consegue se abrir para ela e ela está cansada de tentar. Ela arruma um emprego em Genebra e começa a passar algumas noites por lá mesmo.

Surge então um novo medicamento que tem se mostrado eficaz no tratamento da esquizofrenia, mas não para a melancolia. À princípio o psiquiatra se diz contra eles, mas ao notar melhoras no comportamento de Emil, ele passa a adotá-lo. Aqui tento não dar os polêmicos spoilers, pois esse é um romance com camadas que vão se revelando ao longo das páginas. O passado de Nicolas vêm à toa, há debates sobre a guerra e o fascismo, além de um trecho que pode ser transposto para o Brasil de 2021.

Este é o quarto livro do autor que leio, e até o momento, meu preferido. Muito bem escrito, com debates intensos, mas nunca maçantes. Livros que tratam de saúde mental sempre andam numa corda bamba entre o fetiche e a banalização, em Uma tristeza infinita isso não existe. É uma linha reta, com uma discussão crua e sincera.


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