A vida perto da morte, de Rachel Clarke

Sou de uma família muito religiosa. Minhas avós eram portuguesas. A paterna eu vi apenas uma vez, mas lembro que quando ela veio ao Brasil nós a levamos até a Catedral da Sé. Cheguei a ir a algumas missas com a materna. Inclusive, quando ela faleceu, encontramos papeis de santos pela casa toda. Ela foi à minha primeira comunhão.

Eu queria ir para a igreja quando era criança. Na época que eu deveria fazer a crisma eu parei de acreditar em Deus. Eu sentia culpa e medo de ser punida por isso. Os anos se passaram, a culpa diminuiu, e vivo sem ter uma força divina a qual me agarrar. A morte, apesar de ser um assunto de destaque no cristianismo, sempre foi um tabu. Lembro que uma conhecida da minha vó mandou uma foto do marido dela no caixão. Todo mundo achou aquilo normal, mas ninguém conversava sobre as coisas práticas da morte. Você quer ser enterrado ou cremado? O que eu faço com seus pertences?

O livro Confissões do Crematório, da Caitlin Doughty (trad. Regiane Winarski), mudou essa minha visão. Já gravei podcast sobre ele, escrevi diversas vezes a respeito. Em 2014 uma amiga cometeu suicídio, fiquei transtornada e precisei repensar toda a minha relação com a morte. E o livro da Caitlin ajudou nesse processo. Os vídeos dela abordam assuntos pesados, mas de uma forma leve e bastante direta.

Saiu recentemente pela Editora Nacional o livro A vida perto da morte, da médica Rachel Clarke (trad. Julio Andrade Filho), e o que mais me chamou a atenção é que ela é ateia. Na sua escrita não há menções ao divino. Ela é uma médica especializada em cuidados paliativos, ou seja, seu trabalho é estar junto de pessoas que possuem pouco tempo de vida. Ela dá conforto a eles, faz de tudo para que não sofram em seus momentos finais.

Assim como em Confissões do Crematório, A vida perto da morte traz a história pessoal da autora mesclada com relatos de seu trabalho e de sua vida pessoal. Caitlin fala que prolongaram a vida das pessoas, mas não deram boas condições. Rachel fala justamente sobre essas boas condições. De que adianta ter x tempo adiante, mas em uma cama, sentindo dores?

A Dra. Clarke fala de forma muito franca sobre a morte com seus pacientes, e também conosco, leitores. Ela explica tudo que pode acontecer com o corpo e dá opções. Sabe aquela imagem do médico frio e sem sentimentos? Não existe isso com ela. Ela abraça pacientes, ela dá as mãos, ela faz companhia. Não consigo conceber a ideia de passar meus últimos momentos num ambiente frio e sem cores, com barulhos de equipamentos e pessoas andando de um lado para o outro.

A autora é inglesa, uma cultura bastante diferente da nossa da América Latina. Mesmo que muito da proximidade da morte tenha se perdido, ainda somos menos frios. No livro ela fala do hospice, local em que as pessoas no final da vida vão para receberem os cuidados paliativos. Nesse ano vi um filme com a Eva Green, no qual ela convida a irmã para uma viagem secreta. Chegando ao local, era uma espécie de hospice. A irmã surta, fica brava, acha aquilo tudo um absurdo. A morte é a única certeza que temos e mesmo assim ficamos completamente perdidos perto dela.

Como era de se imaginar, chorei litros lendo esse livro. Aos 34 anos, estou vendo várias pessoas envelhecendo, enquanto meus cabelos ficam cada vez mais brancos. As ressacas agora são mais fortes e minhas costas doem ao carregar uma caixa de livros. A vida perto da morte coloca nossos pensamentos em ordem.

PS: Após essa leitura eu tive vontade de saber mais sobre o assunto, por isso estou maratonando o podcast Finitude. Recomendo demais.


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