Eu, Tituba: Bruxa negra de Salem, de Maryse Condé

É sempre muito difícil encontrar documentos e livros a respeito de mulheres importantes da história. Lido muito com isso na literatura, em que exemplares de escritoras são simplesmente esquecidos e nunca ganham novas edições. Até topar com o livro de Maryse Condé, Eu, Tituba: Bruxa negra de Salem (publicado no Brasil pela Rosa dos Tempos, com tradução de Natalia Borges Polesso e prefácio de Conceição Evaristo), eu não conhecia a história de Tituba.

Tituba foi uma escrava negra acusada de bruxaria nos tribunais de Salem. Pelo que encontrei, ela nasceu em 1674 na América do Sul (possivelmente na região da Colômbia), e foi levada de Barbados para Salem para viver com a família do Reverendo Samuel Parris. As filha do reverendo diziam ser mordidas, beliscadas e machucadas por seres invisíveis. Claro que a culpa recaiu sobre mulheres pobres, moradoras de rua e claro, sobre as escravas, entre elas, Tituba.

Maryse Condé dá voz à Tituba. A própria mulher conta sua história, desde seu nascimento, à vida em Barbados, até conhecer seu companheiro, ser traída por ele e vendida para o Reverendo. Assim como muitas sábias, ela usava plantas e animais para curar doenças, para trazer saúde para as pessoas. Além disso, ela tinha o poder de conversar com pessoas que já haviam falecido, que a ajudavam e davam conselhos.

Pensemos na Igreja Católica aqui no Brasil, no momento da escravidão. Um argumento que eles davam é que pessoas negras do continente africano e os indígenas da América do Sul estavam possuídos pelo demônio. O trabalho forçado ajudaria a tirar esse Mal de dentro deles. A intolerância unida à ganância criou um dos maiores massacres da história mundial. Eu me lembro de uma passagem do livro Kindred da Octavia Butler, no qual ela fala que todos se recordam do Holocausto, mas se esquecem de que a escravidão matou muito mais pessoas.

No julgamento de Salem, Tituba decidiu (ou foi coagida a?) confessar que tinha feito um acordo com o Diabo, para que ela recrutasse pessoas para ele. Dessa forma, alegando a culpa, ela seria inocentada pelos homens. Uma mulher que ousava se dizer inocente nessa época, era considerada automaticamente culpada. Aqui, impossível não pensar no último filme da Trilogia Rua do Medo. Quanto mais uma mulher tentasse provar sua inocência, mais era desacreditada. Pouca coisa mudou nos dias de hoje, em outros âmbitos.

Na história real, Tituba foi absolvida, vendida novamente e depois desapareceu dos registros históricos. Aos olhos de Condé ela teve outro final. Na ficção da autora conhecemos o olhar de Tituba sobre o amor, sobre si mesma e as pessoas a seu redor. Ela se casa, ela tem um amante, ela faz amizade com a esposa do Reverendo e cuida de sua filha com todo o carinho possível. Na cadeia, ela conhece uma mulher grávida, Esther, que lhe oferece um conforto que ela desconhecia.

Através da ficção, Maryse Condé deu voz à Tituba, fez com que ela não fosse esquecida pela história, como tantas outras foram. Tituba foi uma mulher inteligente, preocupada com o bem estar dos outros, e pagou o preço por ser uma mulher negra. Fico feliz que o livro, publicado originalmente em 1986, tenha sido lançado aqui. Esse resgate da histórias das mulheres é mais do que necessário.


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