A Fúria, de Silvina Ocampo

Eu não conhecia Silvina Ocampo até que a Companhia das Letras publicasse A Fúria aqui no Brasil em 2019 com tradução de Livia Deorsola. Quase toda biografia que encontrei dela falava de seu marido e de seu amigo famoso. Ela nasceu em Buenos Aires em 1903 e faleceu em 1993. Seu primeiro livro data de 1937 e antes de se consolidar como escritora, foi artista plástica. Recebeu diversos prêmios, entre eles Prêmio Municipal de Literatura em 1954 e o Prêmio Nacional de Poesia em 1953 e 1962.

De novo, aqui estou eu falando do gênero “mulheres maravilhosas que escreveram contos estranhos”. Muitas pessoas me disseram que a Silvina Ocampo era a avó de todas elas, e eu não poderia concordar mais. A Fúria foi publicado originalmente em 1959 e os contos nele presentes trazem todos os elementos de estranheza da literatura latino-americana que eu tanto amo. Não é a toa que na contracapa do livro tem um blurb da Mariana Enriquez. Ao ler esses contos tive certeza que Ocampo é uma grande influência para Enriquez.

Infelizmente, esse livro foi um claro caso de expectativa: eu não gostei tanto assim dele. Claro que gostei de vários contos, entendo perfeitamente a importância de Ocampo, mas não achei tudo tão maravilhoso assim. Acho de lê-la depois de Fernanda Melchor, María Fernanda Ampuero e a própria Mariana Enriquez tenha quebrado um pouco o meu senso de estranheza.

O conto Mimoso, com um cachorro cuja dona decide empalhá-lo, tem um quê de Ruth Rendell. Já O rebento e A casa dos relógios exploram a crueldade do ser humano. A Sibila traz tudo que eu espero do realismo fantástico latino-americano. E aqui um parênteses para dizer que não curto nada do gênero escrito pelos homens que li até o momento. O porão segue a mesma linha desse imaginário fantástico.

Uma coisa interessante dos contos é que em vários deles as pessoas morrem subitamente. Está tudo bem, e de repente não está mais. Isso acontece em As fotografias e O vestido de veludo, dois ótimos textos. O conto que dá nome ao livro é um dos mais intrigantes.

Nós traz aquele caso de gêmeos que trocam de lugar e causam o caos. Os sonhos de Leopoldina é outro que se desenvolve ao redor das crenças típicas da América Latina. A paciente e o médico me deu uma ideia daqueles romances clássicos em que as pessoas ficam obcecadas umas pelas outras e a morte parece a única saída. O casamento mostra a crueldade inocente de uma criança. Adoro essa temática no terror.

O textos do começo e do final do livro não me agradaram tanto. Os melhores estão ali no meio, mas dois dos últimos são bem interessantes: O nojo e O prazer e a penitência, ambos lidando com as relações de casais. Como eu disse, não é que eu não tenha gostado do livro, acabei de citar vários contos que curti, mas as expectativas estavam altas demais. Em todo caso, esse livro é necessário e precisa ser bem mais conhecido do que os de vários homens que escreviam na mesma época.


2 thoughts on “A Fúria, de Silvina Ocampo

  1. Silvina é mais uma escritora que conheci por causa do Leia Mulheres. Li para o encontro de um dos clubes. No livro os contos que me chamaram mais atenção foram aqueles com crianças “perversas”, que destoam do imaginário de pureza associado ao universo infantil

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