Rastejando até Belém, de Joan Didion

I’d be safe and warm if I was in LA 

Acho que esse foi o quinto livro da Joan Didion que eu li, e me torno cada vez mais admiradora de sua escrita. Confesso que a sua ficção não me pegou tanto, mas os ensaios e os livros com tom mais pessoal já estão entre meus preferidos. Há muito eu queria ler Rastejando até Belém, e finalmente ele foi publicado nesse ano pela Todavia, com tradução de Maria Cecilia Brandi.

Didion escolheu o nome desse livro porque um trecho do poema A Segunda Vinda de W.B. Yeats não saía de sua cabeça: Que besta bruta, de hora enfim chegada,/Rasteja até Belém para nascer?. Ele reúne, em sua maioria, ensaios escritos para entrevistas entre os anos 1965 e 1967. Também é dividido em três partes: Estilos de vida na terra do outro, Pessoais e Sete lugares da mente.

Didion e seu marido trabalhavam diretamente em Hollywood, escreveram alguns roteiros juntos, então não é de se admirar que essa primeira parte do livro traga um pouco desse mundo. O segundo ensaio fala sobre John Wayne, o mocinho de vários filmes de faroeste. O seguinte fala sobre um tipo de escola comandado pela Joan Baez, e como a educação alternativa enfurecia os vizinhos ao redor.

Durante o ano de 2019 eu estava completamente obcecada pelo podcast You Must Remember This. Há uma série de programadas dedicados à vida de Howard Hughes, uma das figuras mais excêntricas que Hollywood já teve. Didion também escreveu sobre ele e uma frase no final do ensaio resume tudo para mim: “Numa nação que parece valorizar cada vez mais as virtudes sociais, Howard Hughes continua sendo não apenas antissocial, mas brilhante e surpreendentemente associal“.

O ensaio que leva o nome do livro foi publicado no The Saturday Evening Post em 1967. Acho que esse foi o que mais me impactou. Pensemos nos anos 60 na Califórnia, música, cinema, contracultura. A autora conversou com diversos hippies, artistas e pessoas que moravam em San Francisco. O LSD era a droga do momento e ela escreveu sobre tudo isso de uma certa distância. Parece não haver nenhum sentimento em sua escrita, até que ela descreve uma situação em que os pais deram a droga para uma criança de cinco anos. Ela encerra o ensaio algumas linhas depois.

A segunda parte é a que mais me interessa. Por isso que essa coisa de separar artista e a obra para mim não existe. Sei que muitos autores não gostam que as pessoas fiquem caçando relatos autobiográficos em suas obras, e eles que me perdoem. Eu vou procurar em absolutamente cada linha.

No ensaio que abre essa parte, Sobre ter um caderno, ela fala uma coisa fascinante. Em suas anotações, ao invés de escrever dados reais, ela inventa coisa. Fala que foi ao mercado em x dia, mas foi em y. Essas pequenas mentiras ajudavam no seu processo criativo. Ela também diz que quem tem cadernos secretos são pessoas solitárias e resistentes. Assuntos como família, amor próprio e impacto de Hollywood em sua vida são centrais nos demais ensaios dessa parte.

Tive um pouco de dificuldades com a terceira parte, minha atenção não estava toda direcionada ao livro. Acho que esse cansaço da leitura tem a ver com a pandemia, isolamento, cansaço. Tenho esses picos de ler muito, cansar, voltar a ler e assim por diante. Não vejo a hora de conseguir sentar com um livro e não pensar em nada mais do que está ali naquelas páginas.

Nessa parte Joan Didion fala de Sacramento, sua cidade Natal. Também fala de sua estadia no Havaí e relembra Pearl Habor, tão recente na época que o texto foi escrito. Sempre fui fascinada pela história de Alcatraz, inclusive fiquei triste quando a série foi cancelada. A autora escreveu sobre A Rocha e sobre as poucas pessoas que ainda viviam lá. E claro, Los Angeles, que está sempre impregnada em seus textos.

Nunca saio a mesma depois de um livro da Joan Didion.


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