Felix para sempre, de Kacen Callender

Esta é mais uma resenha que escrevo graças ao meu privilégio de trabalhar na Editora Nacional. Segundo livro da linha YA da editora, Felix para sempre vai ser lançado agora em julho e conta com uma ótima tradução de Vic Vieira. O autor, Kacen Callender, nascido nas Ilhas Virgens Americanas (Caribe), já recebeu diversos prêmios, entre eles o Stonewall e o Lambda.

O protagonista se chama Felix Love, e por ironia da vida, nunca se apaixonou. Ele é um jovem negro, queer e trans, e está no processo de tentar uma vaga na faculdade. Ele é um artista e seu sonho é ir para a Brown University, uma das mais conceituadas da área. Ele não é um cara privilegiado, mas felizmente conta com o apoio de seu pai, que não sabe lidar muito bem com o filho, mas parece tentar.

Seu melhor amigo é Erza, que vem de família rica e possui um canto próprio. Felix divide seu tempo entre sua casa e o apartamento do amigo. Juntos, eles fazem um curso de artes, meio que um preparatório para a universidade. Felix precisa terminar seu portfólio, mas se sente meio travado.

Um dia ele chega para as aulas e encontra uma galeria de fotos antigas, de antes de sua transição, acompanhadas de seu nome morto, como ele diz. Essas fotos estavam arquivadas em sua conta de Instagram, então ele começa uma busca pelo culpado. Só podia ser Declan, um ex namorado de Ezra, que após o término se afastou completamente dele e de Felix, e passou a tratá-los mal.

Felix cria uma conta falsa de Instagram e passa a mandar mensagens para Declan, para ter certeza de que foi ele. Ao mesmo tempo, ele começa a receber mensagens transfóbicas, da mesma pessoa que criou aquela galeria. Além de lidar com a pressão de ir para a faculdade, de se decepcionar com o pai que não consegue entendê-lo, de lidar com a ausência da mãe que os abandonou e formou nova família, Felix ainda é submetido a esse tipo de violência psicológica.

Ao longo da narrativa enxerguei algumas diferenças entre a realidade brasileira. Ele é respeitado pelos colegas da escola e pelos professores, todos os chamam pelo nome Felix. Aqui no Brasil o preconceito ainda é enorme. Por outro lado, Felix e seu pai gastam muito dinheiro com seu tratamento, enquanto que aqui temos o SUS (Defenda o SUS!).

O livro traz discussões além da transfobia e do racismo, há o autodescobrimento, as confusões da cabeça adolescente, primeiros relacionamentos, corações partidos, e tudo isso com uma linguagem muito direta e coloquial. Aqui elogio a tradução de Vic Vieira, que deixou o texto muito gostoso de ler.

Comentei esses tempos que enquanto eu e as minhas amigas estamos batendo o pé para que as pessoas leiam mais mulheres, os escritores e leitores de YA já estão anos luz à frente. As discussões que eles trazem são muito importantes, várias delas que eu gostaria muito de ter lido quando era adolescente.


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