Umas palavras sobre poesia

Em 2017 li o famoso Outros jeitos de usar a boca da Rupi Kaur. Eu estava no início de um tratamento para depressão e estava num relacionamento lixo. O livro bateu pesado para mim, me identifiquei com algumas passagens. Fizemos um encontro do Leia Mulheres sobre ele e lotou, principalmente de jovens, todas muito apaixonadas pelo livro. Passado um tempo, fui reler e não me identifiquei com mais nada, achei a escrita “pobre” e deixei as poesias dela de lado.

Começaram a aparecer no twitter umas piadinhas com a escrita dela, de cortar frases pulando linhas e etc. E eu fiquei bem irritada de ler essas coisas. Por que a poesia de Rupi Kaur não é válida? Eu não gosto, ela não serve mais para mim, mas lembro daquelas jovens todas. Claro, eu espero que elas partam para outras poetas, mas qual o problema de começar com Rupi Kaur?

Li argumentos de que ela não escreve poesia. Mas aí entra a questão: o que é poesia? Na escola eu aprendi aquela coisa de métricas, escansão de versos e afins. Sei lá porque, mas eu adorava contar sílabas poéticas. Camões era o nome que mais aparecia no meu caderno, com seus sonetos de amor. Lembro de pegar livros do Bocage da estante do meu pai e ficar contando as sílabas.

Poesia não me dizia nada, era um simples exercício e eu tinha que prestar atenção nos significados porque caíam na prova. Foi então que conheci Florbela Espanca, Mario de Sá-Carneiro, Augusto dos Anjos e Álvares de Azevedo. Jovem gótica que eu era, amava aquela coisa de morrer de amor, de apego ao melancólico e ao macabro (devo confessar que ainda gosto).

Passei anos afastada de poesia, até que cheguei à Sylvia Plath, Elizabeth Barrett Browning e Emily Dickinson. Aí fui passando para Ana Cristina César, Matilde Campilho e Adília Lopes. Com elas houve o estranhamento. Poesia podia ser uma frase, um pequeno texto, palavras soltas. Ah, lembrando que passei pela poesia concreta na escola e muita coisa mudou na minha percepção.

Enfim, aí comecei a ver que poesia podia ser muita coisa, sem métricas, sem rimas. Mas também conheci o cordel, que ao contrário, tinha todo um ritmo, assim como aquele que eu encontrei nas poesias de Edgar Allan Poe, quase que uma canção. Olha aí, quanta coisa pode ser a poesia.

Então por que pegar no pé da Rupi Kaur e de outras que escrevem como ela, tal qual a Amanda Lovelace? Elas falam de temas importantes como relacionamentos abusivos, amor próprio, autoconfiança. E o mais legal, Rupi não é branca, Amanda é gorda. Esse tipo de representatividade não apareceu na minha adolescência. Se eu tivesse lido esse tipo de poesia ao invés do amor obsessivo do Álvares de Azevedo talvez as coisas tivessem sido diferentes.

De novo, gosto da poesia delas? Não. Defendo? Com unhas e dentes. Poesia pode ser tanta coisa, e eu acho que aquela que significa algo para nós é a que importa. Deixem as jovens, adultas e idosas lerem essa poesia que dizem ser apenas pular linhas. Para elas pode significar uma coisa importante, assim como “And like the cat I have nine times to die” significa para mim.


2 thoughts on “Umas palavras sobre poesia

  1. Eu não vejo muita diferença entre a Rupi e o Leminski, por exemplo, mas um é aclamado enquanto a outra é rebaixada, né? Também não gosto (nenhum dos dois), mas tô total contigo nessa leitura

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